|
Sindicalismo
de alto risco
CLAUDIA LÓPEZ
Já
foram 482 homicídios de sindicalistas em seis anos
de governo Uribe
As negociações comerciais da Colômbia com o novo
governo dos Estados Unidos e a União Europeia reabrem
a discussão sobre a trajetória trabalhista e sindical
colombiana.Os dados e os fatos demonstram que na
Colômbia tem persistido numa prática governamental
e empresarial obstrutiva, e inclusive violenta,
contra o sindicalismo.
Em nenhum outro país se registram 2.694 assassinatos
de sindicalistas e um total de 9.911 violações à
vida, à liberdade e à integridade deles nos últimos
23 anos.
Uma terça parte desses crimes, incluindo 482 homicídios,
ocorreu nos seis anos de governo do presidente Álvaro
Uribe — em três (2002, 2003 e 2004), o número de
sindicalistas assassinados foi até maior que o de
policiais.
Ser dirigente sindical na Colômbia, em particular
da CUT, aumenta substancialmente o risco de ser
assassinado.
O objetivo deliberado dessa agressão sistemática
tem sido impedir a organização sindical e a negociação
coletiva dos trabalhadores.
O resultado é que, de 18 milhões de trabalhadores,
apenas 3 milhões podem sindicalizar-se — e, desses,
somente 831.000 o fizeram.
Enquanto a população trabalhadora cresce, a sindicalizada
se reduziu em 11% desde 1990. Em 1996 foram acordados
1.579 contratos coletivos que beneficiavam 462.641
trabalhadores.
Em 2006 só se acordaram 975, que beneficiaram 176.948
trabalhadores. Além da violência, a desregulação
trabalhista tem contribuído com esse nefasto resultado.
A legislação laboral mudou para, de um lado, impor
a existência de um contrato trabalhista como requisito
para pertencer a um sindicato e, por outro, criar
Cooperativas de Trabalho Associado, cujos sócios
ou afiliados podem vender seu trabalho, mas não
vinculados por contrato nem cobertos pela legislação
trabalhista.
Deliberadamente, as cooperativas têm sido usadas
como mecanismo predileto para engajar mão-de-obra,
porque permite reduzir ou não cumprir o pagamento
devido de salários e encargos e limitar o direito
de sindicalização e negociação coletiva.
Esses fatos demonstram que o problema trabalhista
na Colômbia não se reduz e nem sequer se centra
na violência sindical, e, sim, que esta é parte
de um padrão sistemático de degradação das condições
laborais e sindicais.
Se o discurso sobre a democracia, os direitos humanos
e o comércio justo é genuíno, as negociações comerciais
deveriam comprometer o governo colombiano e os empresários
nacionais e estrangeiros, que aspiram a benefícios
dos Tratados de Livre Comércio, a que cumpram três
requisitos:
1. Contratar diretamente seus trabalhadores;
2. Pagar integralmente os salários e os encargos
legais;
3. Permitir a criação de sindicatos e negociações
coletivas nas suas empresas.
Se uma empresa não cumpre esses requisitos, deve
pagar tarifas mais altas e ter menor acesso aos
mercados.
Se cumpre, pode se beneficiar de menores custos
e maior acesso. Pôr os incentivos adequados sobre
o caixa dos empresários é o que vai fazer com que
mude a prática empresarial e governamental, e não
fazer declarações vazias que ninguém escuta, nem
segue.
Promover o comércio sem assegurar o cumprimento
de direitos trabalhistas e sindicais é contra não
só os interesses dos trabalhadores colombianos,
como também dos norte-americanos e europeus, contra
quem a permissividade com a violação de direitos
humanos e sindicais, na Colômbia, usa-se como vantagem
comercial comparativa — que destrói empregos bem
pagos e regulados nos seus países, para criar empregos
desregulados e ficticiamente baratos no nosso.
O que se está por ver nessas negociações comerciais
é se os governos da Colômbia, da União Europeia
e dos Estados Unidos são capazes de fazer coerentes
seu discurso de direitos humanos e democracia com
as suas práticas laborais e comerciais.
CLAUDIA LÓPEZ é pesquisadora e analista política
Fonte: O Globo
|